Convidada Especial: Solange Monteiro
Tem um ditado que fala sobre “quem tem padrinho não morre pagão”. Numa licença poética bem à minha moda, eu digo que quem tem amigos não fica na mão. É assim que eu me sinto em relação à Solange.
Se tem alguém que eu conheço, e tenho a sorte de ter como amiga, não importa o tempo e a distância, nem tampouco os contratempos, que cumpre prazos e quando se compromete atende prontamente é essa jornalista dedicada e brilhante, a Solange Monteiro, minha convidada especial de hoje.
Juntas já vivemos um pouco de tudo: trabalho, viagens, butecagem, familia, festas, amigos… Como eu resumo nossa história? Somos cúmplices de experiências felizes, admiramo-nos e nos amamos. Simples assim.
Nossa história começou na redação da revista Update, em 2001, dias antes do fatídico 11 de setembro. Sem receio, viramos amigas, porque a Solange é a própria generosidade feita gente. Engraçada, meio maluquinha, essa é uma mulher divertida, inteligente, ótima jornalista (ela escreve de modo impecável) e, claro, boa cozinheira.
Degustemos, portanto.
O ingrediente mágico
Quem já morou fora de sua cidade ou país natal e gosta de cozinhar deve sentir falta de algum ingrediente que, devido à exclusividade ou às características que adquire no local, acaba fazendo parte da memória emotiva que temos desses lugares.
No Brasil, a culinária peruana também passou a ganhar destaque há alguns anos. Em São Paulo, a máxima dessa tendencia foi a chegada da cevicheria La Mar, uma das diversas redes de restaurantes do chef ícone do Peru, Gaston Acurio. Esse personagem vale algumas linhas. Seu trabalho em fortalecer a marca país peruana através da culinária local transcendeu o prato e chegou ao campo, valorizando a agricultura familiar e as cooperativas. O reconhecimento de seu trabalho faz com que, volta e meia, o mencionem como candidato a presidente, seara na qual, ao menos até agora, ele afirma que nunca entrará.
Voltando ao ají amarillo, ele é a base de vários pratos peruanos, como a causa (montagem fria feita em um molde redondo cuja base é o purê de batata, com acompanhamentos que variam, como lâminas de avocado, atum ou frango desfiado). Aqui em casa, já não consigo fazer purê sem contar com essa pimenta. Basta uma colher de chá para um preparo com quatro batatas. Já o ají de gallina entrou para minha lista confort food. Seu aspecto é de comida de criança, mas a pimenta cuida de eliminar toda a inocência do prato. Também tenho testado em outros preparos não peruanos, que prefiro não compartilhar para não desgostar os puristas. Cada um cometa seu sacrilégio e guarde para si seu segredinho…
Se tiver algum amigo voltando do Chile ou do Peru, peça de lembrança. Vale a pena. Como até agora nunca me faltou a solidariedade de amigos para manter meu estoque regulador, não fui muito persistente em buscar lugares para comprá-lo no Brasil. Talvez a feira boliviana na praça Kantuka, no Pari, seja uma possibilidade, pelo menos, para o ají seco. Quem fizer esse passeio e encontrá-la, avise.
Deixo aqui uma receita de ají de gallina, para os que conseguirem garantir seu vidrinho. A quem ficou só na curiosidade, sugiro três lugares em São Paulo onde provar um bom prato peruano. Abraço!
Aji de gallina
Ingredientes
3 peitos de frango desossados
1 xícara de caldo de frango
1/2 xícara de azeite
3/4 xícara de leite
2 cebolas picadas
3 dentes de alho picados
3 fatias de pão de forma sem casca
100 g de nozes moídas
100 g de queijo parmesão ralado
de 3 a 6 colheres de pasta de ají amarillo (depende da sua tolerância ao picante)
Modo de fazer
Cozinhar o peito de frango na água e sal, sem que fique mole demais e desfia-lo em pedaços médios. Reservar. Bater o leite e o pão no liquidificador. Reservar. Numa panela, refogar a cebola e o alho em parte do azeite, acrescentar parte da pasta de aji e o leite com pão, e o resto do azeite. Esse é o momento de colocar sal e pimenta (do reino) e corrigir a quantidade de pasta de ají, conforme o gosto. Conforme cozinha, acrescentar caldo de galinha para controlar a consistência do molho (que deve ficar como um estrogonofe). Acrescentar o frango e as nozes, e deixar que incorpore sabor. Misturar o queijo.
Em sua versão original, esse prato é servido com arroz, algumas rodelas de batata cozida, ovo cozido e azeitonas para decorar,
Sobrou? Tente colocar tudo no liquidificador. Fica um recheio delicioso para um ravioli.
Como o aji e um ingrediente estranho para nos brasileiros, vale a pena provar um prato antes de aventurar-se na cozinha. Algumas sugestões de restaurante onde encontrá-lo:
(11) 3073-1213 (http://www.lamarcebicheria.com/sao-paulo/)
Telefone: (11) 3361 2400
![]() |
Solange e eu, em Floripa, 2003. |